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0 In Autoconhecimento

Uma despedida inesperada

Não há como escapar da morte.

É da nossa natureza morrer.

Uns tentam em vão ignorá-la.

Outros evitam-na por superstição.

Mas o material não é eterno.

Não há como escapar da morte.

É da nossa natureza morrer.

 

Todos os dias algo morre.

A formiga que pisamos sem querer.

A casa em pedaços onde não mora ninguém.

Alguém que morre de fome.

Todos nós vamos morrendo.

Não há como escapar da morte.

É da nossa natureza morrer.

 

A morte era o nosso tema favorito,

A superficialidade da vida dizia-nos pouco.

Por isso, viemos para a espiritualidade,

Para sabermos como morrer,

Antes do corpo sucumbir à morte.

Não há como escapar da morte.

É da nossa natureza morrer.

 

Nem sempre estivemos de acordo.

A vida é demasiado misteriosa para haver consenso.

Contudo, ambos concordávamos num aspecto.

Na jornada rumo à morte é ela que nos liberta,

E que mostra quem verdadeiramente somos.

Não há como escapar da morte.

É da nossa natureza morrer.

 

Como uma trovoada súbita,

Que surge numa tarde ensolarada de verão,

Recebi a notícia da tua passagem,

Num misto de choque, negação,

E aceitação pela tua escolha.

Não há como escapar da morte.

É da nossa natureza morrer.

 

Neste momento,

Com a tua passagem mais real e definitiva,

Acolho as nossas falsas projecções,

Coloco de lado o que nos separa,

E honro os momentos que tivemos juntos.

Não há como escapar da morte.

É da nossa natureza morrer.

 

Esta é a parte bonita da morte.

O retorno à Criação não acontece sem dor,

Para os que vão, nem para os que ficam.

Mas, quando há consciência, ela repõe a ordem,

E une em luz e verdade o que nunca esteve separado.

Não há como escapar da morte.

É da nossa natureza morrer.

 

Espero que o confronto com a morte tenha sido pacífico,

E que sabiamente lhe tenhas entregue,

Os apegos, desejos e expectativas.

Não há nada que julgar, nem o que perdoar.

És amado pela Criação, familiares e amigos.

Não há como escapar da morte.

É da nossa natureza morrer.

 

Serás lembrado pela luz e amor que eras.

Os momentos de caos e confusão que todos temos não nos definem.

Tocaste muitos de nós em vida,

Com as tuas palavras amigas e olhos ternurentos.

Mas, com a tua morte mudaste-nos para sempre.

Não há como escapar da morte.

É da nossa natureza morrer.

 

Recebo a tua passagem como um presente,

Ela relembra como a nossa existência é pequenina.

Que todos saibamos preparar a nossa morte em consciência,

Criando harmonia connosco, com os outros e com a vida.

Que sejas livre e que faças uma boa viagem.

Até um dia, num outro mundo ou numa outra realidade.

Não há como escapar da morte.

É da nossa natureza morrer.

 

Em memória de Nuno Ordens Miguel, 11/04/2017

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