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O tempo não é nosso inimigo

Há uma história em que um monge leu nos Sutras do Buda que era possível iluminar em 7 dias. O monge entusiasmado chegou ao pé do monge sénior e perguntou se era mesmo verdade, que se ele praticasse diligentemente estar consciente e desperto durante 7 dias, que ele iluminava. O monge sénior confirmou, e ele começou a sua prática nesse mesmo dia.

No entanto,  depois de passar nem 10 minutos perdeu-se nos seus pensamentos. Decidiu começar de novo, e mais uma vez não conseguiu sustentar um estado pleno de consciência por muito tempo. Tentou outra vez e consecutivamente durante vários dias. Ao fim dos sete dias, ele não tinha conseguido iluminar.

Apesar de estar frustrado e do seu objetivo não ter sido cumprido, houve algo que ele notou. Ele estava muito mais consciente das suas fantasias, e dos hábitos da sua mente. Esse estado de consciência foi fundamental para ter um caminho mais maduro e harmonioso, e mais tarde culminou com a sua iluminação.

A nossa sociedade já não está habituada a esperar, mas bons resultados normalmente não chegam depressa. Quando estamos num ponto A e queremos ir para o ponto B, podemos saltar degraus, tomar atalhos, corromper etapas, ou fazer esse caminho passo a passo, de forma consistente e consciente. Desta forma, o nosso inconsciente está a ser energizado, as nossas crenças estão a ser mudadas, e a nossa confiança está a ser construída.

Se chegamos ao ponto B sem solidez, autoestima, confiança e sem experiência, o resultado tende a não ser o esperado, e é pouco consistente. Além disso, pode voltar-se contra nós.

Tenho constatado que os resultados e a sabedoria não podem ser forçados. Acontece o mesmo quando plantamos legumes. Plantamos a semente, damos água, fertilizante e protegemo-la das adversidades. Mas, não há muito mais que possamos fazer. A forma como vai crescer já não é connosco. Quando forçamos esse processo, os legumes deixam de ser legumes cheios de vida, e passam a ser legumes artificiais e mascarados.

A frustração tem sido minha companheira nas últimas semanas. Apanhei-me várias vezes a querer forçar o tempo, ao invés de olhar para o que está a originar essa pressa. Esta é também uma forma de nos maltratarmos, pois com esta atitude acabamos a vermos como não suficientes, e esquecemos do nosso valor.

O tempo é um professor valioso. Dá-nos claridade, quando as nuvens se dissipam. Dá-nos novas informações, que confirmam as nossas certezas. Dá-nos insights, que iluminam a escuridão por um momento. Dá-nos baldes de água fria, que nos acordam de fantasias. Dá-nos atrasos, para irmos mais profundo nos nossos padrões. Dá-nos feedback, que confirma as nossas ações ou a falta delas. Dá-nos consciência, que nos coloca mais perto da verdade. O tempo não fala, mas dá-nos todas as respostas.

Portanto, ao invés de chocar com o tempo, não tenho outra saída senão namorar com ele, sem me sujeitar passivamente às situações que não gosto, e sem tomar atitudes impulsivas e irreflectidas, que complicariam ainda mais o processo.

Às vezes espero, quando agir não funciona. Às vezes ajo, quando recebo um impulso que me permite avançar. Mas, o mais importante é aceitar aprender, e mudar a forma como me trato.

O namoro com o tempo dá sempre frutos. O maior deles é ficarmos mais conscientes do que queremos, do que não queremos, e da parte real e prática do que queremos. Sem truques e mágicas, o tempo dá-nos o que é preciso para vivermos a nossa verdade.

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